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O que devemos aprender com a morte da médica-veterinária atacada por um cão no Senado?

Atualização — 25/08/2026: Este artigo foi publicado em 21 de agosto, quando a médica-veterinária Vitória Valle de Oliveira Pinha ainda estava internada em estado grave. Vitória faleceu em 22 de agosto. A reflexão abaixo foi escrita antes do desfecho e…

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Atualização — 25/08/2026: Este artigo foi publicado em 21 de agosto, quando a médica-veterinária Vitória Valle de Oliveira Pinha ainda estava internada em estado grave. Vitória faleceu em 22 de agosto. A reflexão abaixo foi escrita antes do desfecho e permanece como uma discussão sobre segurança profissional, formação, avaliação de risco e aprendizado coletivo.

Tenho acompanhado as manifestações sobre o caso da colega médica-veterinária atacada por um cão Malinois. E, sinceramente, acredito que este não seja o momento de julgarmos o que ela “deveria” ou “não deveria” ter feito. Nós não estávamos lá. Não conhecemos todas as circunstâncias. Não sabemos exatamente como aquela situação aconteceu.

E existe uma pergunta que, para mim, é muito mais importante:

O que nós, como profissão, podemos aprender com isso?

Porque, em algum momento da nossa trajetória, muitos de nós já nos colocamos em situações de risco para exercer a Medicina Veterinária.

Atendemos animais assustados, doloridos, agressivos, imprevisíveis.

Entramos em ambientes desconhecidos.

Fazemos contenções sozinhos.

Atendemos depois de horas de trabalho.

Ficamos de plantão por 12, 18 horas.

Tomamos decisões enquanto estamos física e emocionalmente exaustos.

E, muitas vezes, seguimos em frente porque existe um animal precisando de nós. Mas precisamos falar sobre uma questão ainda maior:

Estamos formando profissionais preparados para a realidade que encontrarão fora da faculdade?

Temos centenas de cursos de Medicina Veterinária no país.

Mas o que estamos oferecendo em termos de formação prática, experiência de campo, treinamento de contenção, comportamento animal, comunicação de risco e segurança profissional?

Como docente, posso dizer com tranquilidade: não basta colocar conteúdo dentro de uma grade curricular.

A formação precisa preparar o médico-veterinário para tomar decisões em situações reais. E isso exige tempo, prática, supervisão, exposição responsável às diferentes situações da profissão e professores que também tenham condições dignas de ensinar.

Porque existe outro ponto que precisamos discutir.

Muitos professores não têm vínculo CLT.
Muitos não têm férias adequadas.
Muitos conciliam docência com atendimento, plantões, pesquisa e outras atividades.
Muitos profissionais da assistência trabalham além do limite, abdicam do descanso, da família e da própria saúde para conseguir manter a profissão. E existe um momento em que cansaço também interfere na tomada de decisão. Uma mente exausta não funciona da mesma maneira.

Isso não significa retirar a responsabilidade individual de ninguém.

Significa reconhecer que segurança profissional também é uma questão estrutural.

Talvez esteja na hora de pararmos de usar cada acidente como oportunidade para apontar:

“Eu teria feito diferente.”

“Ela errou nisso.”

“Eu jamais faria aquilo.”

Porque esse tipo de julgamento cria uma falsa sensação de segurança:

a ideia de que acidentes acontecem apenas com quem não sabe o que está fazendo.

E não é assim.

Precisamos conversar sobre protocolos de segurança.

Precisamos falar mais sobre comportamento animal na graduação.

Precisamos discutir contenção, avaliação de risco e limites profissionais.

Precisamos formar médicos-veterinários tecnicamente preparados, mas também preparados para reconhecer quando uma situação ultrapassa o limite de segurança.

E precisamos, principalmente, olhar para as condições em que estamos trabalhando e ensinando.

Não acredito que a solução esteja em encontrar um culpado. Acredito que esteja em construir uma profissão mais preparada, mais segura, mais humana e mais unida.

Que esse caso não seja lembrado apenas pelo ataque.

Que ele nos faça perguntar:

O que precisamos mudar para que outro colega não precise pagar um preço tão alto para exercer a profissão que escolheu?

Talvez essa seja a reflexão que realmente deveríamos estar fazendo.

Como classe, precisamos parar de nos destruir pelo julgamento e começar a nos fortalecer pelo aprendizado.

Não é sobre defender erros.
É sobre aprender antes que o próximo aconteça.

Que a notícia da morte da Dra. Vitória seja, antes de tudo, recebida com respeito e solidariedade à sua família, aos amigos e a todos que conviveram com ela. Como médica-veterinária, esse caso também me provoca uma reflexão profunda sobre a segurança com que exercemos a nossa profissão. Não conhecemos ainda todas as circunstâncias do que aconteceu, e a investigação precisa seguir seu curso. Mas talvez seja justamente por isso que este não seja um momento para julgamentos ou conclusões precipitadas. É um momento para perguntarmos, como profissão: estamos preparando nossos profissionais para reconhecer riscos, estabelecer limites, trabalhar com contenção adequada e interromper uma situação quando ela deixa de ser segura? Que a memória da Vitória nos faça olhar para a segurança profissional não como excesso de cautela, mas como parte da própria Medicina Veterinária. Que possamos transformar uma perda irreparável em aprendizado coletivo — para que outros colegas não precisem pagar um preço tão alto para exercer a profissão que escolheram.

Dra Joyce Magalhães
Médica Veterinária – CRMV – SP 57643

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