O que a proposta aprovada em Juiz de Fora pode ensinar a Mogi Mirim sobre prevenção, território e integração entre saúde humana, animal e ambiental.
Que tipo de cidade Mogi Mirim quer ser quando pensa em saúde? A pergunta parece ampla. Mas talvez seja justamente ela que permita olhar para problemas que, durante muito tempo, foram tratados separadamente. Saúde humana, saúde animal e meio ambiente costumavam ocupar espaços distintos. O médico cuidava das pessoas. O médico-veterinário, dos animais. A vigilância sanitária acompanhava determinados riscos. A vigilância ambiental, outros.
O problema é que os riscos não respeitam essa divisão.
Zoonoses, doenças transmitidas por vetores, segurança dos alimentos, resistência aos antimicrobianos, circulação de animais e mudanças ambientais mostram que aquilo que acontece entre pessoas, animais e território pode produzir consequências para todos.
É nesse ponto que o conceito de Uma Só Saúde — One Health ganha força.
E uma proposta aprovada recentemente pela Câmara Municipal de Juiz de Fora traz para o debate uma questão que Mogi Mirim também pode fazer: como transformar conhecimentos que hoje estão distribuídos entre diferentes setores em maior capacidade de prevenção?
O que foi aprovado em Juiz de Fora?
Em agosto de 2026, a Câmara Municipal de Juiz de Fora aprovou o Projeto de Lei nº 406/2025, de autoria da vereadora Kátia Franco (PSB). A proposta prevê a inclusão do Médico-Veterinário da Família na equipe multiprofissional da Atenção Primária à Saúde, com atuação relacionada à promoção de Uma Só Saúde, prevenção de zoonoses, vigilância sanitária e saúde ambiental.
Entre as atribuições previstas estão ações educativas, visitas domiciliares e comunitárias para avaliação de riscos sanitários envolvendo animais e apoio técnico às equipes da Estratégia Saúde da Família.
Há uma ressalva institucional importante: a proposta aprovada pela Câmara não significa que essa política já esteja implementada. A própria Câmara de Juiz de Fora informa que, caso se torne lei, o profissional poderá atuar nessas frentes.
E essa distinção importa.
Porque a discussão não deveria começar pela simples criação de uma função pública.
Deveria começar pela pergunta: que problema de saúde pública se pretende resolver, quais estruturas já existem, quais lacunas permanecem e quais resultados seriam esperados?
Mogi Mirim já tem motivos concretos para discutir isso
A discussão não precisa ser importada de outra cidade.
Em agosto, o Instituto Pasteur confirmou raiva em um morcego frugívoro encontrado na Zona Norte de Mogi Mirim. A Secretaria Municipal de Saúde reforçou a vacinação de cães e gatos, além das ações de orientação e monitoramento. Outro morcego encontrado na Zona Sul, em outubro de 2025, também havia apresentado resultado positivo.
Isso não significa que Mogi Mirim esteja vivendo uma epidemia de raiva. Significa algo mais importante para a vigilância: há um risco epidemiológico que precisa ser reconhecido, monitorado e prevenido.
Poucos meses antes, outro episódio mostrou uma interface diferente. Em junho, o Instituto Adolfo Lutz confirmou a morte de um morador de 58 anos de Mogi Mirim por febre maculosa. O homem trabalhava com plantio de grama e, durante a investigação epidemiológica, foi identificado que havia estado anteriormente em áreas de condomínios na região de Campinas. O local provável da infecção, porém, permanecia sob investigação.
Nenhum dos dois episódios pertence exclusivamente ao campo veterinário.
Ambos mostram como a saúde pública se constrói na interface entre pessoas, animais, ambiente, vetores e território.
E é justamente aí que Uma Só Saúde deixa de ser apenas um conceito e passa a ser uma questão de organização dos serviços.
O que o conhecimento médico-veterinário poderia acrescentar?
A primeira resposta talvez fosse: “cuidar dos animais”. Mas isso é insuficiente. Na Atenção Primária, a contribuição do conhecimento médico-veterinário poderia estar sobretudo nas dimensões sanitária, epidemiológica, ambiental e educativa, em articulação com os demais profissionais e serviços.
Isso pode significar apoiar ações de prevenção de zoonoses, identificar riscos sanitários no território, participar de atividades educativas, contribuir para a saúde ambiental, orientar situações relacionadas à convivência com animais e oferecer suporte técnico às equipes diante de agravos que envolvam a interface entre pessoas e animais.
Existe ainda uma dimensão particularmente importante: o território onde as famílias vivem.
Uma família não existe em compartimentos. Ela convive com seus animais. Ocupa determinado espaço. Está exposta a condições ambientais específicas. Desenvolve hábitos e rotinas próprios. Pode estar mais ou menos vulnerável a determinados riscos. Quando essas informações permanecem separadas, algumas conexões podem passar despercebidas. É aí que o conhecimento médico-veterinário pode contribuir para uma espécie de inteligência territorial em saúde: identificar relações que, quando analisadas isoladamente, podem permanecer invisíveis.
Mogi Mirim deveria simplesmente criar uma função?
Não deveria começar por aí. O primeiro passo deveria ser definir o problema. Depois, mapear o que já existe. Identificar onde estão as lacunas. E estabelecer quais resultados justificariam uma nova forma de atuação. Isso é particularmente importante porque saúde pública envolve competência administrativa, organização de equipes, financiamento, integração entre serviços e avaliação.
No âmbito federal, existe também uma proposta semelhante. O Projeto de Lei nº 5.554/2025 propõe incluir o Médico-Veterinário da Família nas equipes multiprofissionais da Atenção Primária do SUS, com atuação preferencial em apoio matricial às equipes de Saúde da Família e articulação com as vigilâncias em saúde. O projeto ainda está em tramitação na Câmara dos Deputados e aguarda designação de relator na Comissão de Saúde.
Esse detalhe é relevante porque mostra que o desenho pensado para essa atuação não pressupõe substituir estruturas já existentes. Ao contrário: a proposta federal fala em articulação. Esse talvez seja o ponto central. A pergunta não é onde colocar um veterinário.
A pergunta é onde o conhecimento médico veterinário pode aumentar a capacidade de prevenção do território.
O caminho mais inteligente pode começar pequeno
Mogi Mirim não precisaria esperar uma obrigação nacional para testar uma solução própria. Poderia discutir um projeto-piloto em um ou dois territórios, articulando Atenção Primária, Vigilância em Saúde, Vigilância de Zoonoses, Meio Ambiente e outros setores relacionados ao problema identificado. Mas um piloto de verdade não começa com uma fotografia do resultado final.
Ele começa com uma hipótese. E, sobretudo, com indicadores definidos antes do início. Poderiam ser acompanhados, por exemplo, indicadores relacionados à vacinação animal, notificações e investigações de zoonoses, exposições e acidentes, identificação de riscos ambientais, ações educativas, tempo de resposta e integração entre os serviços. Depois:
– testar.
– medir.
– corrigir.
– ampliar apenas quando houver evidência de resultado.
Essa lógica não é apenas prudente. É inovação aplicada à gestão pública.
Porque inovação em saúde pública não é criar mais uma estrutura. É fazer a estrutura existente responder melhor aos problemas reais da população.
Uma Só Saúde não pode ser apenas uma palestra
Nos últimos anos, o conceito de One Health ganhou espaço em congressos, universidades, documentos técnicos e políticas públicas. Mas existe uma diferença enorme entre falar sobre Uma Só Saúde e organizar serviços segundo esse princípio.
A segunda opção é muito mais difícil.
Exige que profissionais compartilhem informações.
Que secretarias conversem.
Que dados sejam integrados.
Que responsabilidades sejam claras.
Que o território seja observado.
Que a prevenção seja priorizada.
E que o resultado possa ser medido.
É por isso que a discussão sobre o Médico-Veterinário da Família é maior do que uma categoria profissional. Ela diz respeito à capacidade de uma cidade enxergar melhor antes de precisar reagir.
Que tipo de cidade Mogi Mirim quer ser quando pensa em saúde?
Talvez essa seja a pergunta que realmente importe. Uma cidade que continua tratando cada risco dentro de uma estrutura isolada, esperando que os problemas encontrem espontaneamente o setor responsável?
Ou uma cidade capaz de conectar conhecimentos, compartilhar dados, testar soluções e construir respostas antes que determinados riscos se transformem em agravos maiores?
A discussão sobre o Médico-Veterinário da Família pode ser uma das portas de entrada para essa conversa.
– Não para criar um consultório veterinário dentro de uma UBS. Não para substituir a Vigilância em Zoonoses.
– Não para transformar recursos públicos em atendimento clínico individual de animais.
Mas para integrar uma competência que conhece uma parte fundamental da equação da saúde pública: a relação entre pessoas, animais e ambiente.
Mogi Mirim já vive situações que mostram essa conexão. Talvez esteja chegando o momento de transformar essa constatação em capacidade de prevenção. E, se sabemos que pessoas, animais e ambiente compartilham riscos, dados e território, a pergunta que fica é outra:
Quanto uma cidade poderia prevenir se suas estruturas também compartilhassem conhecimento?
Uma Só Saúde não deveria ser apenas um conceito. Deveria ser uma forma de organizar a prevenção.
Dra. Joyce Magalhães
Médica-Veterinária | CRMV-SP 57643
Mestre em Ciência Animal | Doutora em Biotecnologia
Medicina Preventiva Inteligente | Casos Complexos | Longevidade Animal







