Pacientes diagnosticados com hipotireoidismo apresentam uma incidência significativa e mais severa de apneia obstrutiva do sono (AOS), um distúrbio caracterizado pelo colapso das vias respiratórias durante a noite. Essa conclusão foi extraída de uma pesquisa publicada na revista Sleep, que revela que aqueles em tratamento com reposição hormonal conseguem desfrutar de um sono mais prolongado e de melhor qualidade.
Estudo Revelador na Unifesp
A pesquisa foi realizada na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), com financiamento da FAPESP, e é parte do Estudo Epidemiológico do Sono de São Paulo (EPISONO). A quarta edição deste projeto, com dados coletados entre 2018 e 2019, avaliou a qualidade do sono de uma amostra representativa de paulistanos.
Os pesquisadores analisaram os dados de 761 participantes, submetidos a exames laboratoriais e polissonografia, considerado o método padrão para monitoramento do sono. Dentre eles, 12,6% apresentaram hipotireoidismo, e quase metade (49,5%) desses indivíduos também sofreu de apneia obstrutiva do sono.
Resultados Surpreendentes
A pesquisadora Ellen Maria Sampaio Xerfan, primeira autora do estudo, comentou que a taxa de apneia encontrada foi superior às expectativas, que variavam entre 30% e 40% na literatura. “Encontramos praticamente metade dos participantes com ambas as condições”, destacou.
Características do Hipotireoidismo
O hipotireoidismo é caracterizado pela produção insuficiente de hormônios pela tireoide, glândula responsável por regular funções vitais como metabolismo e temperatura corporal. Os sintomas incluem cansaço, ganho de peso e dificuldades de concentração. A prevalência varia entre 4% e 8% da população.
Por outro lado, a apneia do sono tem se tornado cada vez mais comum, saltando de 32,9% em 2010 para 37,1% em 2018 segundo dados do EPISONO, afetando cerca de quatro em cada dez pessoas. Essa condição pode provocar ronco, sonolência diurna e sérios riscos à saúde, como doenças cardiovasculares.
Interação entre Tireoide e Sono
A relação entre a saúde da tireoide e a qualidade do sono tem gerado interesse entre pesquisadores, pois ambos são fundamentais para a homeostase do organismo. O estudo revelou que os pacientes com hipotireoidismo não apenas apresentaram mais episódios de apneia, mas também noites de sono mais fragmentadas. Quanto maiores os níveis de TSH, maior a gravidade da apneia observada.
Além disso, o estudo também sugere uma relação bidirecional, onde a má qualidade do sono pode contribuir para o desenvolvimento de hipotireoidismo. “É essencial investigar essa interação, pois as duas condições podem coexistir e influenciar uma à outra”, afirmou Xerfan.
Importância do Tratamento
A pesquisa ainda avaliou o impacto do tratamento com reposição hormonal no sono dos pacientes. Aqueles que estavam em tratamento dormiam, em média, 49 minutos a mais por noite e passavam 22 minutos a mais em sono profundo, crucial para a recuperação e a saúde geral.
A professora Monica Levy Andersen, orientadora do estudo, enfatizou a necessidade de uma abordagem integrada na prática clínica. O diagnóstico e tratamento de distúrbios do sono não devem ser negligenciados, pois ambos podem estar interligados.
Conclusão e Recomendações
O estudo sublinha a importância de tratar tanto o hipotireoidismo quanto a apneia do sono, pois a ausência de tratamento adequado para ambos pode aumentar os riscos cardiovasculares. A interação entre essas condições pode potencializar complicações, refletindo na saúde geral do paciente.
Os pesquisadores planejam continuar a investigação, buscando entender melhor como intervenções para apneia do sono podem impactar a função tireoidiana. A mensagem é clara: profissionais de saúde devem considerar a função tireoidiana em pacientes com apneia do sono e vice-versa, visando um diagnóstico precoce e intervenções eficazes que melhorem a qualidade de vida.







