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Raiva está mais perto do que parece: o que Campinas, São João da Boa Vista e Mogi Mirim estão nos ensinando sobre saúde animal e humana

Raiva está mais perto do que parece saúde animal e humana na região de Mogi Mirim.

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Casos recentes em Campinas e São João da Boa Vista, somados à confirmação de raiva em um morcego em Mogi Mirim, reforçam uma mensagem que não deveria ser esquecida: prevenção e vigilância continuam sendo essenciais.

A raiva é uma dessas doenças que, quando desaparecem do nosso cotidiano, podem criar uma perigosa sensação de segurança.

Durante anos, a vacinação de cães, a vigilância epidemiológica e outras medidas de controle reduziram drasticamente a circulação das variantes historicamente associadas ao ciclo urbano da doença. No Brasil, 2026 marca uma década sem registros de raiva humana transmitida pelas variantes clássicas de cães. Isso representa uma conquista sanitária enorme. Mas não significa que o vírus tenha desaparecido.

Os acontecimentos das últimas semanas ajudam a lembrar disso.

Em Campinas, uma gata encontrada na região do Cemitério da Saudade morreu e teve diagnóstico confirmado de raiva. O vírus identificado pertence à variante associada a morcegos. O município realizou ações de bloqueio, investigação e vacinação no entorno do local.

Em São João da Boa Vista, um cão doméstico de aproximadamente um ano apresentou sinais neurológicos, morreu e teve a infecção confirmada pelo Instituto Pasteur. O animal não tinha acesso à rua e não estava vacinado contra a raiva. Posteriormente, a análise identificou uma variante do vírus associada a morcegos.

E há um detalhe que torna essa discussão especialmente relevante para quem vive na nossa região: em Mogi Mirim, o Instituto Pasteur confirmou em agosto de 2026 a presença do vírus da raiva em um morcego frugívoro encontrado morto na Zona Norte do município. A Secretaria Municipal de Saúde reforçou imediatamente a importância da vacinação de cães e gatos.

Isso significa que estamos diante de um surto?

Não é possível afirmar isso com os dados disponíveis.

E é importante fazer essa distinção.

Os casos de Campinas e São João da Boa Vista tiveram confirmação de variantes associadas a morcegos. Isso é epidemiologicamente diferente da antiga circulação sustentada das variantes clássicas do vírus mantidas por populações de cães.

O Ministério da Saúde informa que a circulação das variantes caninas clássicas AgV1 e AgV2 está atualmente sob controle no país. Ao mesmo tempo, cães e gatos continuam suscetíveis às variantes silvestres, especialmente as associadas a morcegos.

Portanto, o cenário atual não deve ser interpretado como um retorno automático da antiga raiva urbana transmitida de cão para cão.

Mas também seria um erro concluir:

“Então estamos seguros.”

Não estamos em risco zero.

E saúde pública não trabalha com a ideia de risco zero.

Então por que isso aconteceu?

Aqui está uma das perguntas mais importantes — e também uma das que exigem mais honestidade científica.

Não sabemos, em cada caso individual, exatamente como ocorreu a transmissão.

No caso de São João da Boa Vista, por exemplo, o cão era domiciliado e, segundo a investigação municipal, não tinha acesso à rua. O vírus, entretanto, foi identificado como pertencente a uma variante associada a morcegos. Isso aponta para a possibilidade de uma ocorrência relacionada ao ciclo silvestre, mas não permite afirmar, sem evidência do contato, exatamente como o animal foi infectado.

Essa distinção é fundamental.

Dizer que a variante veio de morcegos não significa que alguém tenha necessariamente visto um morcego morder aquele animal.

A epidemiologia precisa trabalhar com evidências, não com suposições.

O que sabemos é que variantes silvestres continuam circulando e que cães e gatos podem atuar como hospedeiros acidentais quando entram em contato com animais infectados. O próprio Ministério da Saúde destaca que gatos têm papel importante nesse contexto por sua maior probabilidade de interação com morcegos, especialmente em ambientes urbanos e periurbanos.

O morcego mudou a lógica da raiva urbana

Talvez esse seja o ponto que mais precisamos compreender.

Muita gente ainda imagina a raiva como uma doença que chega pelo “cachorro bravo”.

Essa imagem ficou ultrapassada em boa parte do Brasil.

Hoje, no cenário brasileiro, a vigilância precisa considerar também o ciclo silvestre, especialmente os morcegos. O Ministério da Saúde informa que, entre 2010 e 2026, a transmissão por morcegos foi a principal fonte identificada nos casos de raiva humana no país.

E morcego não significa apenas morcego hematófago.

Morcegos frugívoros e insetívoros também podem estar infectados. Em Mogi Mirim, justamente um morcego frugívoro teve resultado positivo em 2026.

Por isso, o animal encontrado caído, morto, com dificuldade para voar ou apresentando comportamento incomum não deve ser manipulado pela população.

Mas meu pet vive dentro de casa. Ele está protegido?

O risco pode ser menor em determinadas situações, mas não é correto tratar o ambiente doméstico como uma barreira absoluta.

Cães e gatos podem ter contato eventual com morcegos em casas, apartamentos, quintais, áreas externas, garagens ou outros ambientes.

E existe outro ponto frequentemente ignorado: o tutor nem sempre percebe um contato.

Um animal pode interagir com um morcego sem que ninguém testemunhe o episódio.

É por isso que a vacinação continua sendo tão importante.

A vacinação de cães e gatos é uma das principais ferramentas de prevenção da raiva. Em São Paulo, as campanhas públicas foram suspensas desde 2021, mas municípios mantêm estratégias de vacinação e vigilância. O Ministério da Saúde informa que a cobertura nacional de vacinação de cães e gatos em 2025 foi de 78%, mostrando também que a manutenção da proteção exige adesão contínua dos responsáveis.

O que o tutor deve fazer na prática?

Primeiro: verificar se a vacinação antirrábica do cão ou gato está atualizada.

Segundo: evitar contato direto com morcegos ou outros animais silvestres, vivos ou mortos.

Terceiro: se houver suspeita de contato entre um pet e um morcego, procurar imediatamente orientação veterinária e do serviço municipal de zoonoses, sem tentar resolver a situação por conta própria.

E, se uma pessoa sofrer mordida ou arranhadura ou tiver contato de risco da saliva de um mamífero com mucosa ou ferida, a orientação é procurar atendimento de saúde o mais rápido possível. A profilaxia pós-exposição é uma medida de prevenção fundamental e pode envolver vacina e, conforme a avaliação, soro ou imunoglobulina.

Por que isso é uma questão de One Health?

Porque a raiva é praticamente a definição de Uma Só Saúde — One Health.

Não estamos falando apenas de uma doença de cães.

Estamos falando de uma infecção que envolve:

animais silvestres → animais domésticos → seres humanos → ambiente → vigilância epidemiológica.

O Ministério da Saúde define Uma Só Saúde como uma abordagem que reconhece a conexão entre saúde humana, animal, vegetal e ambiental e defende justamente a colaboração entre diferentes profissionais, instituições e setores.

A raiva demonstra isso de maneira quase didática.

Um morcego infectado pode representar um evento de saúde animal.

Um cão ou gato infectado pode representar um risco para outras pessoas e animais.

Um caso suspeito exige atuação veterinária, laboratorial e epidemiológica.

Uma pessoa exposta precisa de avaliação imediata pelo sistema de saúde.

E tudo isso acontece dentro de um ambiente compartilhado.

Não existem fronteiras perfeitas entre essas saúdes.

Estamos seguros?

A resposta mais responsável é:

estamos muito mais protegidos do que estaríamos sem décadas de vacinação e vigilância, mas não estamos livres do risco.

O Brasil avançou enormemente no controle da raiva transmitida por cães. Ao mesmo tempo, a circulação de variantes silvestres permanece um desafio real. Em 2026, o Ministério da Saúde registrou casos de raiva humana associados a variantes silvestres e reforçou a necessidade de vigilância, prevenção e vacinação.

Mogi Mirim já tem um sinal concreto dessa circulação na própria cidade: um morcego positivo para raiva.

Campinas e São João da Boa Vista mostraram outro passo possível nessa cadeia: a passagem do vírus do ciclo silvestre para animais domésticos.

Isso não significa que toda cidade esteja prestes a enfrentar um surto.

Significa que não podemos tratar a ausência de casos frequentes como ausência de risco.

A lição mais importante talvez seja outra

A raiva traz uma lição que ultrapassa a própria doença.

Em saúde, muitas vezes esperamos uma crise para dar valor à vigilância.

Mas prevenção funciona justamente de outra maneira.

O morcego positivo é um sinal.

O animal doméstico infectado é um sinal.

A alteração de comportamento é um sinal.

A queda na cobertura vacinal é um sinal.

A investigação desses sinais antes que uma cadeia de transmissão se estabeleça é parte do que torna uma política de saúde realmente preventiva.

Prevenção não é esperar a doença aparecer para agir. É reconhecer o risco enquanto ainda existe espaço para evitá-lo.

E talvez seja essa a pergunta que deveríamos fazer agora:

Não apenas “há casos de raiva na nossa região?”, mas “estamos fazendo tudo o que está ao nosso alcance para que esses casos não se transformem em uma cadeia de transmissão?”

A resposta depende de todos: poder público, serviços de vigilância, médicos-veterinários e, principalmente, tutores.

Porque, quando falamos de raiva, cuidar do animal também é uma forma de proteger a saúde das pessoas e do ambiente em que todos convivemos.

Dra. Joyce Magalhães
Médica-Veterinária | CRMV-SP 57643
Mestre em Ciência Animal | Doutora em Biotecnologia
Medicina Preventiva Inteligente | IntegraZenVet

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