As mulheres do Rio Grande do Norte desempenharam um papel fundamental e pioneiro na história do sufrágio feminino no Brasil. Em 1927, o estado se destacou ao aprovar uma lei que eliminou a distinção de gênero no direito ao voto, tornando-se um marco não apenas para o Brasil, mas também para a América do Sul. A professora Fernanda Abreu, da Universidade Estadual do Rio Grande do Norte (UERN), ressalta a importância dessa conquista.
Avanços Legislativos e o Papel de Bertha Lutz
A lei estadual nº 660, sancionada em 25 de outubro de 1927 pelo governador Juvenal Lamartine, foi um passo crucial na luta pelo sufrágio feminino. Lamartine tinha um forte compromisso com a causa, dialogando diretamente com a sufragista Bertha Lutz, que desempenhou um papel essencial na articulação política que possibilitou essa mudança. “Essa foi a primeira legislação no Brasil a garantir o direito ao voto sem distinção de sexo”, explica Abreu.
Celina Guimarães: A Primeira Eleitora
Em novembro de 1927, Celina Guimarães Viana, uma mulher de Mossoró, se destacou ao pedir seu alistamento eleitoral, tornando-se a primeira mulher a se registrar como eleitora no Brasil e na América do Sul. No dia 5 de abril de 1928, ela fez história ao votar. “Celina é um símbolo do feminismo em sua essência”, afirma a professora Abreu.
Outra figura importante foi Júlia Alves Barbosa Cavalcante, também do Rio Grande do Norte, que se alistou no mesmo dia que Celina e se tornou a segunda mulher a votar no Brasil. Em 1928, apenas 15 mulheres exerceram seu direito ao voto no estado.
Alzira Soriano: A Primeira Prefeita do Brasil
O Rio Grande do Norte também foi pioneiro em candidaturas femininas. Alzira Soriano de Nóbrega Teixeira se lançou à prefeitura de Lajes em 1928, antes mesmo de as mulheres terem o direito de votar. Abreu destaca que Alzira venceu as eleições com 60% dos votos, tornando-se a primeira prefeita do Brasil e da América Latina, apesar de enfrentar uma campanha repleta de preconceitos e ataques misóginos.
Desafios e Conquistas
A luta pelo sufrágio feminino não se limitou ao direito de votar. A pesquisadora Cibele Tenório, da Universidade de Brasília, enfatiza que essa conquista foi essencial para abrir portas para futuras candidaturas de mulheres. “A resistência ao voto feminino estava ligada a barreiras que impediam as mulheres de se candidatarem e de defender suas pautas sociais”, explica Tenório.
A professora Abreu observa que as vitórias no Rio Grande do Norte são raras, pois ocorreram simultaneamente e antes do marco nacional de 1932, quando o voto feminino foi oficialmente reconhecido no Brasil. “Quando o ambiente político é favorável e existe organização feminista, as conquistas se aceleram”, conclui.
Essas mulheres não eram figuras extraordinárias, mas cidadãs comuns que lutaram por um direito que consideravam legítimo. Esse gesto de reivindicação é visto como um dos atos mais poderosos e subversivos na luta pela igualdade de gênero.






